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RITUAL, CAMINHO, MEIO, OU FIM?

Updated: Feb 7, 2023




Resp. Ir. Roger Cahen + / A.L. 6.000

Past Master da The Santo Amaro Lodge, No. 7250

GLUI - Distrito da América do Sul, Divisão Norte - São Paulo


O estudo dos Rituais pertence ao campo da psicologia. No caso dos rituais desempenhados por seres humanos (sim, porque animais também os desempenham) esses caem no estudo da semiologia, ou semiótica, que tem por objeto o estudo de imagens, símbolos, emblemas, gestos, vestes, ritos e toda a comunicação não verbal; e da lingüística, que é o estudo de todas as formas verbais de comunicação.


Para entendermos "ritual" é necessário fazer uma viagem por termos que geralmente

geram confusões e/ou abusos. O primeiro deles é o próprio termo "Ritual". Entre diversos

dicionários e inúmeras definições o termo é descrito como: "Conjunto de práticas consagradas pelo uso e/ou por normas e que se deve observar de forma invariável em ocasiões determinadas; cerimonial (Aurélio)". 1. Um ato cerimonial e/ou solene, observância ou procedimento de acordo com uma regra ou costume prescritos, como em usos religiosos. 2. qualquer observância formal ou costumeira. 3. uma forma prescrita ou sistema particular (especial) de procedimento cerimonial, religioso ou outro (Webster). (Grifos meus).


Minha definição: Meio sistêmico de se emitir mensagens padronizadas de maneira a que

estas sejam recebidas com um mínimo possível de entropia. Rito é UM sistema em

particular de se desempenhar um determinado ritual, como em "o rito da Igreja Católica

Apostólica Romana" ou "sistema de organizações maçônicas"(Aurélio). Assim, para os fins deste trabalho, os termos "Ritual" ou "Rito" se eqüivalem e poderão ser utilizados

indiscriminadamente.


Assim, "ritual" tem o objetivo de realizar procedimentos de forma padronizada, como

meio de emitir mensagens, de formas verbais E não-verbais. Portanto, verificar se todas as

portas e janelas da casa estão bem fechadas, ato repetido toda noite, por mais que se

deseje chamar a isso de "ritual", do ponto de vista semântico e para efeitos desta palestra,

não o é; é apenas um conjunto de movimentos sistematicamente repetidos.


Já um casamento na igreja ou na sinagoga é um ritual pois segue movimentos

preestabelecidos com...e agora chegamos a outros pontos muito importantes...emblemas,

símbolos e platéia (assistentes). Sim, porque ritual sem emblemas, sem símbolos e sem assistência, é apenas um conjunto de movimentos repetidos da mesma forma, por mais que possa parecer ser ritual para aquele que o desempenha. Assim, os paramentos

apresentados na igreja ou sinagoga, a música solene, os comportamentos - sim,

comportamentos, posturas e atitudes circunspectas fazem parte dos rituais – do sacerdote, dos noivos, dos padrinhos e dos assistentes (testemunhas), as palavras e gestos revestidos de formalismo, tudo isto e muito mais é que compõe um ritual. E a prova disso é que é previamente ensaiado, como todo bom ritual deve ser, para, sendo bem desempenhado, devidamente emitir as mensagens que se deseja transmitir. Mesmo os mais informais dos casamentos – p. ex., os casamentos hippies da década de 60 continham ALGUMA forma ritualística. No mínimo os noivos usavam flores emblemáticas na cabeça e seguiam algum tipo de formalidade ritual.


Mais um exemplo, ao contrário: quem consegue imaginar uma parada militar sem os

uniformes, sem a exibição de armas padronizadas, sem a música militar, sem os

movimentos ritmados? Não transmitiria as mensagens que se queria transmitir, no caso da

parada militar, ordem, poder, força, coesão e conceitos afins.


O ritual, por parte dos assistentes, dá qualificação e validade formal aos atos

desempenhados pelos participantes E AOS PRÓPRIOS PARTICIPANTES. Ritual não

assistido não tem validade formal, embora possa "quase" existir – p. ex.: padre sozinho na

igreja, cumprindo uma sucessão de atos quase ritualísticos – qualificam o ritual para o

próprio padre, pois este também precisa da repetição (entre aspas) "ritualística" para dar

significado aos atos que desempenha.


Vamos falar um pouco de emblemas e de símbolos. Emblema é uma representação

pictórica, interpretada, de algo que se deseja transmitir. Exemplo, o leão rampante das

armas da Coroa Britânica emblematiza (representa) valor, força, coragem e semelhantes. Outro exemplo: ensina-se aos estudantes que o "verde da bandeira simboliza as nossas matas". Primeiro, é uma adaptação, pois o verde era e ainda é a cor oficial da Casa de Bragança. Segundo, porque tendo significado "fechado" o verde apenas pode emblematizar nossas hoje tão depauperadas e queimadas florestas.


Daí a conclusão – emblema tem significado quase que único, fechado; e símbolo é

quase que inexplicável (eu disse quase) pois só parte de seu significado é verbalizável –

grande parte é sentida, sem possibilidade de se verbalizar.


Emblemas podem se transformar em símbolos e símbolos podem se transformar em

emblemas. E para piorar as coisas, podem alternar estes papéis.


Exemplo: a bandeira brasileira. Estou aqui no Brasil, vejo-a a toda hora, não me diz muito – é emblema. De repente sou obrigado a me exilar numa capital no exterior, Paris por exemplo, deixando para trás família, amigos, casa. Apesar dos museus, da boa comida etc. passo na rua, vejo a bandeira brasileira na frente da Embaixada do Brasil e isso me traz inúmeras lembranças e sentimentos, muitos dos quais impossíveis de se verbalizar, a não ser que se seja um Marcel Proust e se tenha o dom da prolixidade infinita. A bandeira se tornou um símbolo. Aí há uma anistia, volto ao Brasil e, passadas as emoções do momento, me reintegro à vida aqui. Passo a novamente ver com freqüência nosso lábaro estrelado. Voltou a ser emblema.


Outro exemplo: a cruz gamada, a suástica, antigo símbolo budista de continuidade,

perpetuação e valor que era utilizado até mesmo para decorar frontispícios de sinagogas. Até 1930 (+ -) era "apenas" isto. Adotada pelos nazistas, passou a ser símbolo de racismo, de intolerância, de ódio, de violência, de guerra, de destruição. Símbolo a ser odiado para sempre – menos para alguns imbecis, para quem ainda é símbolo de saudades de tempos não vividos, que eles julgam melhores; e para outros cretinos, símbolo de algo que eles julgam ser melhor que aquilo que há hoje, e assim por diante.


O problema dos dias de hoje é que algumas pessoas, digamos, menos avisadas, menos cultas, pegam emblemas e símbolos criados em outras eras, em outras culturas, para

outros fins e tendem a analisá-los com os olhos de nossa sociedade imediatista e materialista e sem nenhuma consideração pelos fatores sócio-históricos daqueles que os criaram.


Idem com relação a rituais. Isto leva a análises superficiais e desrespeitosas – ou maravilhadas. E é por isto que alguns rituais podem parecer – a olhos mais desavisados e,

porque não dizer, mais cínicos – primitivos, desnecessários, gongóricos, redundantes,

arcaicos e até mesmo ridículos – ou maravilhosos. Se pudéssemos ter total empatia com aqueles que os estão desempenhando ou se ao menos pudéssemos ter plena compreensão dos seus pormenores e de seus significados "gestálticos" certamente daríamos mais valor a esses rituais e aos símbolos e emblemas que os acompanham.


Um exemplo: O quê pareceria a um índio amazônico, desses que jamais viram um homem (dito) branco, um casamento na Igreja Nossa Senhora do Brasil – com todos os "Fs" e "Rs" de uma família muito, muito, rica, seguido de uma festança no Buffet França? Ou ele ficará horrorizado, sentindo-se totalmente perdido ou ficará maravilhado.


O ser humano precisa do ritual para dar sentido, valor ou legalidade a diversos atos

de caráter formal ou religioso que desempenha, sob o risco de que estes "não valerem". O ser humano inventa, cria rituais para lhe dar apoio psicológico. Exemplo: na tribo indígena o cacique, chefe, pajé, sei lá quem, paramenta-se (usa símbolos de seu status) para certas cerimônias específicas, pode entrar numa espécie de transe e executa movimentos e cantos que são passados de uma geração para outra, de maneira iniciática, e para perfazer determinadas funções.... ritualísticas. Mas, se o pajé desatasse a realizar seus rituais a qualquer momento, sem aviso prévio, sem motivo aparente e sem a necessária paramentação, a tribo poderia achar que ele está louco, e poderia "desabilitar"

(impeachmente) o pajé. Assim, vemos que não se pode abusar de "ritual", sob pena dele,

por assim dizer, perder sua validade.


E daí, o que é que isto tem a ver com nossa Ordem? Digamos que um aprendiz chega

aqui de camiseta, tênis e jeans. Mesmo ocupando as posições corretas, mas por pessoas vestidas de qualquer maneira, e sem aventais e colares, e mesmo usando as palavras

corretas, ele é "iniciado". A iniciação "valeu"? O candidato teve impressos na mente os

valores que se tentou transmitir? As lições que se pretendeu ensinar? DEPENDE! Este tipo

de iniciação já ocorreu e foi considerada válida – mas durante a II Guerra Mundial e em

campos de prisioneiros. E MESMO assim, pequenos compassos, esquadros e níveis, feitos de sucata de metal, foram usados. E o candidato fez seu juramento em cima de uma

pequena Bíblia, de um dos soldados. Nem os japoneses nem os alemães confiscavam isto,

embora proibissem Maçonaria e executassem quem fosse apanhado fazendo sinais ou

portando símbolos Maçônicos nos campos de prisioneiros. Mas a necessidade do ser

humano por ritual é tão forte que diversas Lojas Maçônicas foram formadas e/ou se reuniram em campos japoneses e alemães. A prova está em Londres, no Museu da Grande Loja.


Agora alguém poderia perguntar, num caso destes, já que Ritual sem símbolos e sem

emblemas não é Ritual, como é que ficaria uma Iniciação sem a presença destes, mas com

todas as ações e palavras corretas – desde que as Três Grandes Luzes emblemáticas

estejam presentes? Primeiro, nosso Ritual é um misto de Ritual Não-Verbal e de Ritual

Verbal; sendo que as máximas, as lições e as instruções estão quase que totalmente – ao

menos no início – concentradas na parte verbal.


Segundo, o próprio Candidato é o Emblema E o Símbolo do Símbolo Maior, que é o Templo do Rei Salomão. Eu explico. Quando o Venerável vai ensinar os segredos de um Maçom a um Candidato ele ordena que o Candidato "fique perfeitamente ereto, com os pés em forma de esquadro, seu corpo sendo assim considerado um emblema de sua mente e seus pés da retitude de suas ações". Mais: Na Alocução do Canto Nordeste o Venerável diz: "...........você está agora colocado na parte NE do Templo, figurativamente para representar a pedra fundamental de um edifício magnífico e, da fundação colocada esta noite, possa vocêerigir um edifício perfeito em seus detalhes e que faça honra ao Criador (do Edifício e do próprio Candidato [e, por conseqüência, do Criador do Candidato – o GADU], que é a pedra bruta a ser polida). E, como neste momento o Candidato não está nem vestido nem despido, desprovido de todo dinheiro e metais e de todo e qualquer símbolo de seu status social (como terno, gravata etc.), fica aqui provado que o próprio corpo humano, vaso necessário para conter a mente, a alma, que Deus criou à Sua imagem, é o símbolo máximo do símbolo máximo da Franco-Maçonaria, que é o Templo do Rei Salomão.


Seja como for, a Iniciação como a conhecemos, com a necessária pompa, símbolos,

emblemas, alegorias e tudo o mais é, como dizemos na Cerimônia – JURIDICAMENTE

VÁLIDA, LEGAL, para os efeitos da Franco-Maçonaria Universal. Sem isto, mesmo sabendo tudo de cor e salteado, inclusive os sinais, um Profano não é um Maçom, a não ser sob circunstâncias muito especiais, que, esperemos, jamais se repitam!


No caso da Franco-Maçonaria, uma instituição de caráter iniciático, esotérico, o ritual

exerce vários papéis. Primeiro, o de transmitir suas lições e regras de forma sempre igual,

para que seus membros passem pelos mesmos passos que todos os outros, de maneira a criar uma linguagem e até sentimentos comuns; segundo, o de passar, de forma dramatizada, suas lições; e terceiro, embora os "segredos" já tenham sido revelados há muitos anos em diversos livros, para manter a aura de secreticidade isto é, se o ritual fosse de conhecimento comum a Ordem deixaria de ser o que é, passando a ser uma sociedade de caráter eXotérico (com X).


Não vamos aqui penetrar no mérito em si de se a forma é válida ou não – inclusive porque não nos é lícito discutir este assunto, ou seja, não cabe a nós discutir o Ritual – cabe-nos obedecê-lo, cumpri-lo da forma como foi estabelecido pelas autoridades competentes.

(Comentário paralelo: Qual o Católico praticante que se atreveria a discutir os rituais da Igreja Católica Apostólica Romana com o Bispo da Arquidiocese, o Cardeal Arcebispo ou,

pior ainda, com o Papa? Daí a expressão: Ensinar o Papa/Cardeal/Bispo/Padre/Vigário a

rezar missa).


Repetindo: sem um Ritual padronizado, muito pouco mudado desde que as duas

Grandes Lojas rivais (que se juntaram em 1813) estabeleceram em 1814 a Loja de

Reconciliação, que chegou ao ritual atual, em 1816, nós seríamos qualquer coisa, menos

Maçons Ingleses. Deixemos bem claro neste ponto que outros Rituais Maçônicos, adotados

por outras Constituições, também fazerem Maçons regulares, com isto também não

querendo dizer que outros sistemas "companheirísticos/amicais", de caráter não iniciático, sejam ruins; até que quase que sempre pelo contrário. Mas em todos eles existe algum pequeno grau de ritualismo, de emblemática e de simbolismo – o que pode ser provado pelas cerimônias Rotarianas, só para se dar um exemplo. Mas, seja como for, aquilo que nos caracteriza que nos diferencia, do resto do mundo é o nosso Ritual – obedecido, executado e repetido sempre de maneira igual.


Assim, respondendo à pergunta que é o título deste trabalho – em Franco-Maçonaria

o Ritual é ao mesmo tempo um caminho – pois segue uma seqüência lógica de passos

sempre repetidos da mesma forma; e é um meio para polirmos nossa própria pedra bruta e é um fim em si, exatamente por ser o caminho e o meio.

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