PEDRA BRUTA

Blog do site SALMO133 - Pesquisas e Estudos Maçônicos

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um século de letras

Em 27 de novembro de 1909, um médico do Rio de Janeiro, mas radicado em São Paulo, instalava a Academia Paulista de Letras. Doze anos antes Machado de Assis dava à luz a Academia Brasileira de Letras, que seria inspiração para as que surgiriam nas diversas unidades da Federação e tivera a francesa por modelo. O propósito dessas confrarias era congregar pensadores para implementar - ao menos no mundo das letras - o federalismo, de tão difícil consecução na República neófita.

Continua polêmica a ideia de academia de letras. O academicismo é expressão com fisionomia pejorativa. Tem conotação de pedantismo, de anacronismo, postura infensa a inovações. Pode ser utilizada como sinônimo de um espírito convencional, pouco criativo, artificioso e pretensioso. Daí o repúdio de alguns literatos que se consideram libertos e já posicionados acima das vãs gloríolas acadêmicas.

Nada obstante, a ideia de academia ainda atrai uma tribo de espécimes singulares. Na volúpia de uma era do efêmero, da incerteza, do descartável e cada vez mais transitório, é saudável um espaço para a reflexão e o debate. As sessões da academia podem ser pós-graduação em literatura, filosofia ou especulação científica, se vencida a estiolante opção pela mera leitura de atas das sessões anteriores. Desde que assumi a condição de titular da Casa de Cultura do Largo do Arouche, aprendi muito com as preleções de Miguel Reale. Espírito superior, talentoso e genial em todas as esferas de uma atuação prolífica e duradoura, dissertava sobre temas permanentes e nunca deixou de prestigiar as reuniões das quintas-feiras.

Mero perpassar d"olhos pelos nomes que honraram a Academia Paulista de Letras permite concluir que ela foi o repositório da intelectualidade bandeirante. Mencione-se, por mera e aleatória amostragem, a presença de Alcântara Machado, Macedo Soares, Cândido Mota, Alfredo Pujol, Mário de Andrade, Washington Luís, Goffredo da Silva Telles, Plínio Salgado, Honório de Sylos, Aureliano Leite, Paulo Setúbal, Cassiano Ricardo, René Thiollier, Maria de Lourdes Teixeira, Arrobas Martins, Sud Mennucci, Roberto Simonsen, Ibrahim Nobre, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Ricardo Ramos, Julio de Mesquita Filho, Ataliba Nogueira, Spencer Vampré, Alfredo Buzaid, Altino Arantes, Afonso Taunay, Sérgio Buarque de Holanda, Vicente de Carvalho, Monteiro Lobato e Menotti Del Picchia. Quem pode recusar a essa instituição o dom de congregar o que de melhor produziu a cultura de São Paulo?

Os objetivos de sua permanência continuam fiéis ao ato criador - a tutela do vernáculo, o estímulo à escrita e à leitura -, mas ela não pode fugir aos novos reptos. A República Federativa do Brasil ainda não chegou ao estágio republicano ideal, nem ao grau de federalismo que reflita aliança baseada na igualdade democrática. Tudo isso pelo déficit de maturidade política, mas sobretudo pela deficiência da educação.

Confundir educação e escolarização formal foi característica presente no decorrer destes 120 anos de vivência de um regime que tem muito a se aperfeiçoar até que se aproxime dos anseios da nacionalidade. O processo de autoaprimoramento é compromisso perene e definitivo. Continua válido o comando oracular que Sócrates perpetuou sob a fórmula "conhece-te a ti mesmo". Perscrutar o infinito universo da consciência humana e decifrar o enigma do destino dessa espécie que se considera a única racional é a missão de que a lucidez não se pode descuidar.

A academia tem algo a oferecer a esse projeto de disseminar a prática da reflexão e fortalecer a opção pela educação permanente. Seus integrantes já não precisam submeter-se ao ritual imposto a quem se proponha a conquistar espaços. Eleitos pelos pares, já tiveram avaliado o seu currículo. Podem se entregar, sem o estigma da competição, à especulação desvinculada de outros objetivos que não o deleite intelectual. Podem e devem ser motivados a repartir suas habilidades e experimentos com uma legião de destinatários. Partilhar o conhecimento com a infância e a juventude já constitui opção de vida de alguns acadêmicos. Não é impossível contaminar os demais, vencido o núcleo de resistência que ainda enxerga o convívio acadêmico sob a ótica de um clube fechado, sem compromisso algum com a comunidade.

Não é esse o espírito da maior parte dos membros da Academia Paulista de Letras neste ano de seu centenário. Eles prestigiaram a tese de que é urgente devolver à comunidade o amealhado em décadas de aquisição de sapiência. Por isso participaram da verdadeira perestroika desta gestão. Acataram o chamado ao protagonismo, que se traduziu em presença física a dezenas de reuniões realizadas nos mais distintos auditórios. Poder público, instituições parceiras, organizações, empresas e espaços os mais variados conviveram o ritual acadêmico das sessões semanais.

A Academia Paulista de Letras foi reconquistar a atenção de São Paulo, mostrou-se viva e disposta a assumir papel reforçado no despertar de uma consciência renovada. A consciência de que um povo que não lê e não escreve tende a persistir na servidão incompatível com o supraprincípio da dignidade da pessoa humana. Uma vez detectada essa vocação, que durante algumas décadas foi acometida de parcial letargia, ela nunca mais será a mesma. Não se consegue segurar o vento com as mãos. Neste caso, o vento saudável da renovação, animada pelo voluntarismo de fazer a diferença na cena cultural de uma unidade federativa com a exuberância e a complexidade de São Paulo.

Mercê desse despertar consciente e motivado, a Academia Paulista de Letras prestará fecunda contribuição à causa cultural da Nação e nunca mais será o mesmo cenáculo de tempos idos. Nobre, sim. Gratificante, não menos. Mas propenso a uma autossuficiência inviável em tempos de partilha, de solidariedade e de construção conjunta de um promissor destino comum.

José Renato Nalini, desembargador do Tribunal de Justiça de
São Paulo, é presidente da Academia Paulista de Letras


Publicado no jornal "O Estado de São Paulo" - Sexta-Feira, 27 de Novembro de 2009

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sábado, 21 de novembro de 2009

Lula, o Filho do Brasil




Para ler a reportagem publicada pela Revista VEJA, CLIQUE AQUI


Leia também: Propostas para a era pós-Lula


Leia também: A arrogância como ameaça


Leia também: Vacas de presépio que se fazem de pastores


Leia também: 'FT': mérito de Lula é continuar FHC



Será este, um passo decisivo na construção (digamos, supostamente oportunista) de um mito brasileiro? Ou trata-se apenas da sua divulgação, pois mito que é mito já nasce feito...

A partir de agora, volta revigorado à cena cotidiana (em concorrência direta com a novela das 9...) o tema central da nossa sui-generis democracia (em construção acelarada)...

Entre outros benefícios este novo, eletrizante, biográfico e histórico multimídia, deverá...

- contar uma das mais importantes páginas (senão, a mais) da História "deste País"...

- eletrizar as multidões de fans brasileiros e estrangeiros, que sabiamente (vox populi) acreditam "neste País"...

- comprovar que as sonolentas e ignaras minorias adversárias não acreditam "neste País" (desnorteadas que estão pela sua falta de cultura democrática, falta de visão e falta de "esperança")e apenas insistem em negar o inegável (soa familiar?)...

- animar horas a fio de debates intermináveis sobre os destinos "deste País"...

- ajudar a "engulir" (soa profético...) redondo "este País" enquanto sorvendo aquela "loira" gelada...

- colocar nos devidos trilhos eventuais e obscuras pretensões e esforços de "el hermano muy amigo" para impedir a liderança regional, internacional e, quiçá, sideral "deste País"...

- motivar brindes com legítima "branquinha" os grandes feitos que já estão garantidos para "este País" predestinado...

- etc e tal...

Além acima arrazoado, você pode enumerar outros valiosos e sacrosantos benefícios decorrentes da felicidade deste "abençoado" nascimento ter ocorrido "neste País"...

Claro, a "mãozinha" dada pela GLOBO a "este País" tem sido valiosa...

Pois eis que até mesmo uma rendazinha extra com a vendagem da estória da maior epopéia "deste País" é capaz de gerar para alguns ou para muitos. Não era este o objetivo, mas fazer o que, né, milagre é milagre!

Um dia, quando cair no domínio público, o multimídia poderá ser distribuido e apreciado nas escolas do sistema de ensino público "deste País"...

Até lá, é comprar ou alugar...

Lembre-se que piratear não vale "neste País"!

Ufa... será que o "ómi" chama "País"?!

Para conferir é só aguardar mais alguns anos...



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AMIL - Encontro Internacional



AMIL
Academia Maçônica Internacional de Letras

INTERNATIONAL MASONIC LITERARY ACADEMY

II INTERNATIONAL MEETING

Local: MASONIC TEMPLE
The Grand Lodge Of Free & Accepted Masons of Pennsylvania
Philadelphia – Pennsylvania
29 a 31 de Outubro de 2009

















Na foto acima, ao centro o Irmão Antonio Simões, Presidente da AMIL para os EE.UU. e na frente da Bandeira está o Vice-Presidente para os EE.UU e próximo Grão-Mestre da G.L. da FILADÉLFIA.
















Flagrante da palestra proferida pelo ilustre confrade e Ir. Sérgio Borja, dia 31 de Outubro passado, por ocasião do Encontro de Filadélfia. Para visualizar o paper apresentado pelo Ir. Borja, por favor clique no logo PDF abaixo.

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

15 de Novembro de 1889 - 120 anos de República

Proclamação da República do Brasil

Lendo os jornais deste domingo e navegando em alguns websites, a sensação que senti foi que a data passou realmente em branco...

Parece-me que os assuntos republicanos em pauta nos jornais e no dia-a-dia do nosso povo são muito mais urgentes e importantes do que lembrarmos que um dia ela foi proclamada...

Temas de aparente extraordinária relevância estão na pauta de frenéticos e-mails repassados à exaustão e nos jornais mais respeitados do País, abrangendo uma gama de assuntos, tais como: Apagão, extradição, Honduras, Currículum Vitae de Candidatos à Presidencia da República, intrigas da oposição, visita de um Presidente estrangeiro, Pré-Sal, soberania sôbre a região Amazônia, papel das Forças Armadas, etc, etc... Realmente, todos assuntos de extraordinária relevância.

Quanto a preservar o conhecimento dos diversos aspectos e circunstâncias dos fatos de nossa história, parece-me que estamos em um processo de perda de memória ou de mudança de identidade.

Talvez em mais alguns anos teremos a surpresa, e o dissabor, de verificar que poderemos ter "perdido por completo o fio da meada", isto é, poderemos ter perdido as referências de nossas origens e história. Caso tal hipotética situação ocorra, será algo interessante e exótico, pois poderemos vir a nos transformar em herdeiros da República de São Bernardo..., ou refundadores da Pátria ou, ainda, tardios mas valentes e indômitos Bolivarianos... , ou, quem sabe, galhardamente demonstraremos nossa liderança regional ao substituirmos o vernáculo por outro mais coerente com as novas "tradições"... É um processo demorado, mas com persistência e tenacidade pode ser realizado com êxito. Depende exclusivamente das lideranças que ocupam as posições chave da nação.

Quanto à República, quais foram mesmo os motivos e justificativas para a sua "proclamação"?

Recuperando um pouco a memória a respeito deste, digamos, relativamente importante evento Pátrio, segue um link sobre o assunto.

CLIQUE AQUI

Como será que um movimento desta natureza seria recebido nos dias de hoje?

De qualquer modo, creio que devemos celebrar a data, certo? Então,...


... Salve a República do Brasil!

Cordialmente,


domingo, 15 de novembro de 2009

JORGE de SENA










Colaboração enviada pelo mui estimado amigo, Irmão e Confrade

Bernardo Martins Pereira

Ilustre Presidente Internacional da Academia Maçónica Internacional de Letras - AMIL

Lisbôa, Portugal.


Intróito

Jorge de Sena era filho Único de Augusto Raposo de Sena e Maria da Luz Grilo de Sena. Nasceu em Lisboa em 02 Novembro de 1919. O Pai era Açoriano e a Mão Beirã, natural da Covilhã. O Pai, Comandante da Marinha Mercante. A Família da Mãe, de Origem Transmontana, Cristãos Novos, Judeus “convertidos”. Eram Famílias da Alta Burguesia. A Avó materna era pessoa muito culta e viria a ter grande influência em Jorge de Sena. A Avó Paterna era amiga de Fernando Pessoa, o qual Sena viu várias vezes lá em casa, quando ainda não imaginava quem ELE fosse. Sena cursou o Liceu no Colégio Vasco da Gama que virou Colégio de Freiras e terminou por isso os estudos liceais, no Liceu Camões. Que coincidência interessante! Veremos à frente a importância de Sena, na divulgação, análise e “TRADUÇÃO”, da obra de Luis de Camões. Da Poesia? Outra coincidência! Um dos seus Professores no Liceu Camões, na disciplina de Físico-químicas, era um jovem em inicio de carreira, chamado RÓMULO DE CARVALHO, que viria a ser o Grande Poeta Antonio Gedeão. “Não é GEDIÃO”. Ingressa na Escola Naval, como n.º 1 do curso. Como Oficial Cadete, visita Cabo Verde, São Tomé, Brasil, Angola, Ilhas Canárias. É demitido da Marinha de Guerra. “Mau feitio” segundo os ditames do Estado Novo. Entres as Batalhas Familiares para seguir a carreira das Armas e os defensores das Profissões Liberais, houve uma solução de compromisso. A Engenharia! Que completou em 1944 na Faculdade de Eng. Do Porto. Começou a escrever em 1936, (mal!) e de 1936 a 1939, vai desenvolvendo sua cultura literária, sem qualquer convívio com os meios respectivos e quando A PRESENÇA publicou em 1939 o poema APOSTILHA, de Álvaro de Campos, como inédito, enviou uma carta chamando a atenção que esse poema havia sido publicado vários anos antes, no NOTICIAS ILUSTRADO, com variantes. A seria publicada, por simbólica coincidência, no último numero daquela revista, em Fevereiro de 1940. Troca a esse propósito correspondência com Adolfo Casais Monteiro, que havia acusado a recepção da carta e viria a dar origem a uma entrevista no 1.º andar do “falecido” café chave D’ouro no Rossio, (ou Praça dom Pedro IV (ou Dom Pedro I para o Brasil), local que então era O CENTRO DO MODERNISMO. Havia várias Presidências de mesa, ao tempo CORDIALMENTE HOSTIS umas ás outras, e que eram regularmente ocupadas por Gaspar Simões, Casais Monteiro, e José Osório de Oliveira. Foi aí que Sena conheceu “OS RAPAZES” dos cadernos de poesia. É no segundo n.º desta publicação, que são impressos os seus primeiros poemas, sob o Pseudónimo de Teles de Abreu (apelidos seus de família). Estávamos em 1940. Em 1945, Sena começa a exercer o cargo de Eng.º na Direcção Geral dos Serviços de Urbanização e na Junta Autónoma das Estradas, para cujo quadro entrou, e do qual viria a sair em 1959 ao fixar residência no Brasil. Só em 1952 é que sai para a Europa, numa viajem a Inglaterra. Desde então, viajou muito por Espanha, de novo Inglaterra, Bélgica, e França. Convidado a tomar parte no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, pela Universidade da Bahia e pelo Governo Brasileiro, em Agosto de 1959, partiu para o Brasil, onde aceitou o convite para ficar como Catedrático contratado de Teoria da Literatura, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de ASSIS, Estado de São Paulo. Em 1961, transfere-se para a Faculdade de Filosofia, Ciências e letras de ARARAQUARA. Viria a licenciar-se do cargo, em 1965 para aceitar o convite dos Estados Unidos da América, tendo pedido a demissão do cargo em 1967, para se fixar nos EE.UU. No Brasil deu cursos ou Conferencias em na UNIVERSIDADE DO BRASIL, do RECIFE, CEARÁ, MINAS GERAIS, BAHIA, e fez parte da comissão do Ministério da Educação Nacional que propôs a reformulação dos CURRICULA superiores de letras. Na Universidade de São Paulo, foi membro de vários júris para Doutoramento, livre docência, e Cátedra. Em 1964, após várias dificuldades BURROCRÁTICAS e Politicas, Jorge de Sena consegue defender tese de Doutoramento em Letras e Livre docência em Literatura Portuguesa, e os títulos Académicos foram-lhe atribuídos com distinção e louvor. O Júri era composto por Catedráticos das Universidades do Brasil, (Rio de Janeiro), São Paulo, Minas Gerais, e Bahia. A sua tese são os Sonetos de Camões e o soneto quinhentista peninsular. Nos EE.UU., fixa-se a partir de 1965 na Universidade de Wisconsin (considerada ao tempo umas das top ten dos EE.UU.) para a qual havia sido convidado. Após dois Anos como visiting professor, pede demissão de seu cargo no Brasil e é nomeado Professor Catedrático do departamento de Português e Espanhol daquela Universidade. Fez conferencias em várias Universidades Americanas, Membro da MODERN LANGUAGE ASSOCIATION e da RENNAISSANCE SOCIETY OF AMÉRICA, tendo sido eleito ACADÉMICO DA HISPANIC SOCIETY OF AMÉRICA em 1966. Foi crítico Literário do Mundo Literário, de Teatro na Seara Nova e na Gazeta Musical e de TODAS AS BARTES, conferencista sobre cinema nas secções do Jardim Universitário de Belas Artes, além de Artigos publicados em vários Jornais, como o Primeiro de Janeiro, Noticias, Comércio do Porto, entre outros. Tem livros traduzidos em Espanhol, Francês, Italiano, Inglês, Alemão, Croata, Lituano.

Eis uma breve resenha à guisa de Curriculum daquele que é considerado O MAIOR depois de Pessoa. Para algumas referências biográficas, CLIQUE AQUI.. Outras referências podem também ser encontradasneste outro link.

Jorge de Sena era um HOMEM INTEIRO. Para ele não havia CONDESCENDENCIAS para a MEDIOCRIDADE, LAMBE-BOTAS e quejandos. Era UM MAL-AMADO, pela sua intransigência e verticalidade. De Cultura IMENSA, não esperava que lhe fizessem justiça depois de morto. Vejamos este Poema:

VER

No coração mental das tuas flores perdidas
Há um pequeno núcleo enegrecido,
Que enegreceu à falta de o olhares.
Não julgues, olha-o,
Olha-o por amor da minha vida.
Verás que se desdobra imaculado.
Estarei pensando fugidiamente em como
Será que o olhas. Nada mais farei.

II

No ténue perpassar de nuvens cuidadosas
Como flores que abriam no silêncio de outras,
A mim próprio escuto, e os olhos com que vejo
São minha voz falando o tempo de passarem
Mais outras nuvens, qual a vida ao sopro,
Ao invisível sopro ou chama ou só altura
Interiormente aberta ao espaço que a rodeia.
A mim próprio escuto, eu sei. Mas não de mim,
Que alheio vivo a vida que em mim fala.
Como as nuvens que passam cada vez são outras
A quanto escuto ignoro ou esqueço ou nem contemplo,
Abertos olhos, meu destino além
De mim, de tudo eu próprio sou porque
Já fui e não serei, ou serei sempre mais
De meu destino a essência que lhe dou
Na extrema contingência de tornar a ser.

Jorge de Sena era um Homem paradoxal! Não no sentido de que o paradoxo é o contrário da verdade, mas sim a verdade vista do lado contrário. Talvez por isso os seus volumes de notável recorte, sobre ANDANÇAS E NOVAS ANDAÇAS DO DEMÓNIO, não encontraram junto do Público a receptividade que “ DE DIREITO” lhe caberiam. Mais estranho porém, terá sido o facto de os que neste País condicionavam, ou imaginavam condicionar, a sensibilidade dos leitores anónimos. Diria Eduardo Lourenço; Jorge de Sena não é um autor fácil. É um autor, e um autor nunca é fácil. Ainda subsistiam muitos resquícios dos MODERNOS Savonarolas, nos nossos meios culturais. Mas Jorge de Sena seguiu o seu rumo, indiferente às “coisas pequenas”, ciente de que era GRANDE! Continuando E. Lourenço. O que realmente distingue a sua obra, não só no panorama Nacional, onde o seu caso tem foros de insólito, como no contexto mais geral da cultura contemporânea, é o facto dela constituir uma meditação a que a História da Cultura, mormente a literária e espiritual, serve de mediador privilegiado e, por vezes, único. Decerto, o exemplo de um Jorge Luis Borges poderá ocorrer quando se pensa na obra de Jorge de Sena. As diferenças, porém, são bem mais significativas que uma certa exterior analogia. A Obra de Jorge Luis Borges é uma insólita expressão de cultura-ficção, de literatura da literatura, um labirinto sofisticado construído com materiais culturais ou pseudo-culturais como forma da impensabilidade radical do Tempo. O bibliotecário genial de Buenos Aires mediu como que a vacuidade dos livros e resumiu-a no mito de um Livro eterno e inacessível do qual todos procedem e ao qual todos reenviam. Num sentido preciso, a obra de Borges já não faz parte da literatura, vive dos seus limites, glosa a sua radical ilusão e o seu histórico fim. Não é exactamente deste tipo a relação de Sena com a Cultura. Esta é a vida simbólica, a experiencia ardida mas ardente dos homens, o fogo sob a cinza a que conhecimento, vigília e honesto estudo permitem aceder. Nesta fornalha sempre presente meterá as mãos como erudito para remodelar ou se inventar uma figura ou uma época conforme à sua exigência de homem actual, mas mais profundamente ainda a fantasia e a imaginação para transfigurar miticamente as sua mais fundas experiências e intuições de homem e de poeta. Por mais que na obra de Sena se manifeste a omnipresença de uma consciência superior à matéria que informa, por mais que uma dialéctica irónica, nos mostre um autor hiper-consciente dos seus dons e do domínio que sobre eles exerce, num virtuosismo sem imitadores pátrios, o jogo prodigioso que se desenrola nas suas páginas nada tem de artificioso. Esse jogo conhece-se como jogo histórico, está penetrado de ecos, disputas, e combate, alegoria e extreme realismo. O resultado é uma maquinaria literária de uma extravagancia sabiamente ordenada sob a qual corre sem fadigas uma confissão tumultuosa e límpida por interposta pessoa, confissão num sentido mais fundo que aquela que “diz” o seu óbvio pois nela se engloba a voz que o “não-diz ou o tenta, ou o diz mais alto através dos Marcos Semprónios, dos Camões ou do Físico Prodigioso, presenças perturbadas e perturbantes, do muito admirável livro que se chama NOVAS ANDANÇAS DO DEMÓNIO.

Mestre Emérito de Teoria da Literatura, Poeta, Prosador, Dramaturgo, ensaísta, ficcionista, Critico, Tradutor, que “não conseguiu” ser Profeta em sua terra, porque Jorge de Sena era Grande demais para a pequenez das mentalidades retrógradas que sobreviviam aos Coronéis do lápis azul da Censura prévia. Mas vejamos o que diz o próprio, em entrevista dada em Abril de 1968. Ainda não “havia” Maio de 1968!

Pergunta:

Há quem o acuse de susceptível e agressivo. Concorda que o é?
Resposta:

Realmente? Julgava eu que esse mito já havia passado, por se ter revelado inoperante para neutralizar-me e destruir-me. Mas, se acaso sou susceptível, tenho a susceptibilidade dos exigentes e dos arfáveis, honestamente afáveis. E, se sou agressivo, é só a agressividade do muito amor. Eu não perdoo a ninguém a mediocridade, a estupidez, a vileza, a malignidade, a incultura, a suficiência, a intolerância, o espírito de compromisso, a cobardia moral, etc.
Neste caso, não é “assim falava Zarathrusta”! É, ASSIM FALAVA E PENSAVA JORGE DE SENA, pela pena do próprio.


PERGUNTA:

Não é novidade para ninguém que vc. É um dos seus mais seguros admiradores. Mas a frequência com que proclama o seu talento, ou a “obrigação” e necessidade que parece sentir em proclamá-lo não denunciarão uma certa insegurança, a par, naturalmente, da recusa a falsas modéstias?

RESPOSTA:

É um engano total. Não sou. A Única razão pela qual parece que eu proclamo a cada instante o meu talento é porque, até muito recentemente, se eu o não fizesse, ninguém o faria. E, se eu sou agudamente sensível a todas as formas de injustiça, haveria de deixar que ela se exercesse impunemente comigo? Poucos escritores portugueses de relativo mérito deverão tão pouco à crítica como eu. De todos os sectores, o silencio ou o amesquinhamento foram de regra durante quase trinta anos. Onde está a bibliografia a meu respeito durante trinta anos? Com raras e dignas excepções, eu, durante anos, recebi apenas dedicatórias de livros ou cartas particulares, ou devotadamente admiradoras, mas onde estão os equivalentes públicos de tanta admiração dos meus ilustres camaradas? Uma ou outra dentada em prefácio, quando muito. Elogios “À CONTRE-COEUR” em histórias literárias é o mais que eu recebo, quando notórios medíocres são coroados de flores, por serem suficientemente reaccionários, ou suficientemente “dos nossos”. (dos “nossos”, entenda-se no contexto, os companhons de route do Partido Comunista). Dado que eu não acredito em nenhuma forma de imortalidade, e tenho erudição bastante para saber que cemitérios são as bibliotecas e as histórias literárias; e dado ainda que não me dou a participar de partidarismos que me ofereçam, por substituição, a ilusão da imortalidade, será bem clara a razão de exigir o re3conhecimento que me cabe pelo muito e bom que tenho feito. Tenho horror de falsas modéstias, de facto. Mas tenho ainda mais horror da mediocridade que se compraz em recusar-se a reconhecer o que a excede. Não, não sou um dos meus mais seguros admiradores. Se o fosse, seria como a maioria dos membros da vida literária portuguesa, tão satisfeitos de si mesmos que escrevem sempre um livro pior do que o anterior. O Problema não está em eu me considerar muito grande--- mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos. De resto, devo acrescentar uma palavra de justiça e de grato reconhecimento: foram muitos dos pequenos que não se julgam grandes, e aos quais durante anos não dei uma palavra de correspondente louvaminha, quem honestamente, e com isenção, se ocupou mais de mim do que a critica oficial das várias chafaricas individuais ou colectivas. A eles devi, por muito tempo, um comovente incentivo que muitas vezes não recebi de amigos. E, ainda quero fazer uma pergunta: quantos escritores de categoria se têm ocupado tão largamente e tão numerosamente dos outros seus contemporâneos, como eu fiz durante trinta anos? Quantos? O mais que fazem é louvar às vezes um medíocre ou desenterrar um morto, com medo da sombra que lhes seja feita. A diferença entre mim e eles é que não temo o juízo do futuro, e não procuro tapar o sol com uma peneira. Não: a minha segurança é total e absoluta: ninguém pode destruir-me senão eu mesmo.

SETE SONETOS DA VISÃO PERPÉTUA

I
Anos sem fim, à luz do mar aceso,
Te vi nudez quase total, tão grácil
Figura juvenil, ambígua e fácil,
E ao longe às vezes totalmente nua

Em só relance de malícia crua.
Tudo isso me atraia e me afastava,
Embora a vista, retornando escrava,
A teus lugares me tivesse preso.

E quase sempre então tua figura,
Sentada estátua, ou falsa sesta impura,
Lá era, ao sol, o tempo congelado.

Hoje, subitamente, tu não viste
Ninguém senão o meu olhar quebrado,
E com lenta inocência te despiste.

Mas quantas rugas no sorriso ansiado!

II

Como velhice esta agonia desce
Ao fundo em que me encontro só comigo.
E quanto amor trocara então contigo
Enfim te dando o que sonhara em anos

Se torna apenas máscara de enganos
Com que te aceito, como amor antigo,
Esse momento de ansiedade e perigo
Que no teu rosto as rugas te recresce.

Tu sabes que de perto a juventude
Se te queimou no acaso das entregas;
E quanto risco a tua imagem corre

Quando não está tão longe que me ilude,
Nem já tão perto que de ciência chegas
A presumir a graça que não morre.

Mas, porque sabes, tua graça negas.

III

Não mais! Não mais! Que eu esqueça que te tive,
E tu me esqueças debruçado em ti!
Que tudo seja como outrora eu vi:
Uma figura ao longe recortada,

E fina e esbelta, ou suave e alongada,
não tão distante que me não entendas,
nem tão perto de mim que tu me vendas,
no mesmo corpo belo, o que não vive

nesse teu rosto, ou sob a tua pele:
uma malícia esplêndida, capaz
de se entregar violenta quando a impele,

sem mais que orgulho, a força juvenil.
Assim será que, em mim, teu corpo jaz.
E sem nos lábios o sorriso vil.

Mas como há-de teu corpo em mim ter paz?

IV

O que o teu corpo foi, não imaginas:
A juventude, a força, a agilidade,
A fantasia obscena, a intensidade
Com que dos gestos se constrói prazer.

Mas isso ele foi em sonhos. Hei-de ver
Teu corpo assim, ou como o possuí?
Ou hei-de vê-lo como ao longe o vi?
Ou como estatua, em lixo de ruínas?

Jacente dormirá, estendida e pura?
Mas como dormirás, se em mim não dorme
O tempo que a teu rosto ainda tritura?

Como nos mata esta velhice enorme!
Que vinha vindo entre nós dois, tão dura,
Que melhor fora te tornar informe…

Ou sombra dúbia pela noite escura.

V

No claro dia passas lentamente,
Fingindo não me ver. Será que tu
Sentiste quanto no teu corpo nu
Não encontrei, menos que a tua, a minha

Memória de ser jovem? Adivinha
A tua carne mais que o meu olhar-te?
A quem tanto viveu de contemplar-te
Te dói de te haveres dado ansiosamente?

E, á luz do mar, ao longe te recortas.
Vejo que fluem para ti, já mortas,
Quantas imagens te criei, tão vivas.

Já não desejo mais do que sorrir-te.

VI

E, todavia, eu não quisera amar-te.
Mas ter-te, sim, de todas as maneiras.
Quem és e como és, de quem te abeiras,
Que dizes ou não dizes, pouco importa.

E muito menos hoje me conforta.
Neste sorriso que dou tranquilo,
Eu ponho num remorso tudo aquilo
Que em fundo amor eu te pudera dar-te,

Se alguma vez te amasse de amor fundo.
Senta-te à luz da do mar, à luz do mundo,
Como na vez primeira em que te vi,

Tão jovem, que era crime o contemplar-te.
E despe-te outra vez, pois vêm olhar-te
Quantos te buscam de saber-te aqui.

Sendo um de tantos, nunca te perdi.

VII

E olhei-te por mais tempo. Ainda hei-de olhar-te,
Quando, acabados teus lugares, partires,
Deixando no ar o espaço de fingires
A graça juvenil que eu devorei,

Ano após ano, e em meu olhar tomei
De todos que te tinham sem te ver.
Ainda hei-de olhar-te, se, quando morrer,
Puder voltar aqui a procurar-te

No espaço que deixaste. Mas não te amo,
Não te amei nunca, e nunca te amarei.
Não se ama nunca a quem olhamos tanto.

Nem se deseja. Quando por ti clamo,
Neste silencio em que de ti fiquei,
Não é senão o libertar do encanto

Que foste ao longe, a luz do mar aceso.
E à luz que te recorta é que estou preso.

Jorge de Sena, 25-02-1965

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sábado, 14 de novembro de 2009

Secret History of the Freemasons




Espero que seja de ajuda para ampliar o seu entendimento de alguns temas e contradições que envolvem a Sublime Ordem, seja nos EUA ou pelo mundo afora.

Cordialmente,


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The Lost Symbol




Este final de semana iniciei a leitura desta última novela de Dan Brown. No link da AMAZON BOOKS você poderá ler algumas páginas, incluindo a introdução completa (que intenta revelar alguns "segredos" da Sublime Ordem).

Na medida que prosseguir na leitura desta novela, apresentarei alguns comentários para os leitores do Blog do SALMO133.

Cordialmente,


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domingo, 8 de novembro de 2009

POEIRAS DE BRANCO











CONVITE

Alberto Sergio C. Pierro

APML – Cadeira No. 08



Romance, tendo um neurocirurgião em um grande Hospital como personagem central da história . Os casos relatados (casos clínicos) são verídicos, todo o resto é ficção.


Cocktail de lançamento do livro "Poeiras de Branco", próximo dia 23/11, às 19:30 hrs.

Local: Rua Eduardo Monteiro, em Santo André. (uma uma travessa da Av. Portugal, uma rua antes do Franz Café. maiores detalhes, por favor, contate o Ir. Pierro por e-mail

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sábado, 7 de novembro de 2009

O Viralata










Sei que nunca fui poeta,
Muito menos escritor,
Mas pra contar essa história
Desse cão que conheci,
___ Tinha o corpo todo branco,
tinha o rabinho cotó,
na cabeça a mancha escura
que lhe cobria as orelhas___
Minha gente eu me arrisquei
A passar qualquer vexame
Pra deixar aqui gravada
A história do “Totó” !

O escarcéu era enorme
E maior ainda a sujeira.
O odor que exalava
Impregnava as narinas,
E a impressão era medonha.
Tudo era grande, era enorme,
Era no superlativo.
Tudo, menos o autor
Pois não é que o estardalhaço
Vinha de uma brincadeira
De um trigueiro viralatas.

Tinha o olhar matreiro,
Sobre as patinhas traseiras
Sentado, a abanar a cauda,
O cão se divertia ao ver
Tanta coisa ao seu redor
Pelo chão esparramada.
Desapontado, embora,
Pois que não encontrara
Uma coisa só que servisse
Pra saciar a sua fome...
Apenas lixo e sujeira.

Mas o seu olhar criança
Não se deixa apagar,
Que ainda tem esperança
De alguma coisa encontrar.
Uma pulga atrás da orelha
Atrevida a lhe coçar,
Uma ferida em sua pata
Que insiste em incomodar
Não são motivos para o cão
Na vida não acreditar,
E ainda se alegra a brincar.

Uma senhora que passa
Vendo a sujeira da rua
E o viralatas maroto
Ao lado, a se espreguiçar,
Não disfarça sua ira.
Numa explosão bem humana,
O nojento animal
Ela decide expulsar.
E o cão, pobre coitado
Sua área de folguedos
Se vê obrigado a mudar.

Descendo a rua, contente,
Um garoto de família
___ gente bem, da sociedade ___
Vem chutando uma latinha,
Despreocupado, a cantar,
E o cãozinho, esperançado,
Vê uma nova brincadeira,
Novo amigo a conquistar.
E lá vai ele, todo aceso,
Rápida a cauda abanando,
E a latinha vai buscar.

“Sai pra lá, seu viralatas,
Cão vadio e até sarnento,
Deixa em paz minha latinha
Que quero, sozinho, chutar.”
E o cãozinho, cabisbaixo,
Uma outra brincadeira
Decide-se a procurar.
Mas sua tristeza é fugaz,
De novo a cauda balança,
É que ele viu a criança
A latinha abandonar.

E lá se vai o maroto
Atrás da latinha outra vez.
Mas não é que o garoto
Fez aquilo de propósito
Só pra dar uma pedrada
No ousado viralatas
Que sua nobre brincadeira
Intentara interromper;
E o cãozinho, atordoado,
Com maltrato acostumado,
Vai-se embora avergonhado.


Mas sua ira passa logo
Que de novo o menino
Um gesto amigo lhe acena
Tendo ao lado um companheiro.
E lá se vai o cachorrinho
Iludido de que, agora,
O brinquedo é pra valer
Mal sabendo, no entanto,
Que a intenção dos meninos
Embora lhe acenassem,
Em nada tinham mudado

E o pobre cão viralatas
Virou o centro do mundo
Nessa infernal brincadeira;
Pois não é que lhe amarraram
À cauda aquela latinha
E ainda por cima acenderam
Assustadora bombinha
Da qual o forte estampido
Em meio às gargalhadas
Se misturou aos ganidos
Do apavorado cãozinho.

Em apressada carreira,
Lamentando sua sorte,
Desceu o animal a ladeira
Acabando por perder
Na corrida, a latinha;
Mas eis que, sem dó, o barbante
Que lhe amarraram na cauda
Os dois travessos meninos,
Sangrar a pele lhe fez,
Mas, bastaram umas lambidas,
Pra o assunto ele esquecer.

Alerta, de orelha em pé,
Ouve o grito de um moleque,
O barulho de uma bola,
E lá se vai o maroto
Co’a molecada brincar.
E a história se repete
Sendo, a bola, o viralatas,
Que a garotada sem dó
Não cansava de chutar,
Enquanto o pobre coitado
Lutava por escapar.



Cabisbaixo e dolorido
Decidiu, o viralatas,
Que brincar com a garotada
Não iria nunca mais,
Pois em toda brincadeira
Que se atrevera a entrar
Todo mundo se alegrava
E ria despreocupado,
Só ele é que não entendia
Onde estava, nisso, a graça
Que doído ele saía.

Já fizera um escarcéu
Naquela lata de lixo
E fora expulso da rua;
Correra atrás da latinha
E tivera a cauda a sangrar;
Sem falar no baita susto
Por causa da tal bombinha.
Todo doído e faminto,
Esquecer as brincadeiras
E tratar logo do almoço
Decide o alegre cãozinho.

Uma hora uma pedrada
Outra hora o “sai pra lá”,
E assim transcorria a vida
Daquele cão solitário
Que, apesar do que sofria,
Achava a vida alegre,
E valia ser vivida,
Pois sempre achava comida,
Sempre matara sua sede,
E um canto qualquer lhe servia
À noite, como guarida.

Olhar aceso e matreiro,
Uma lição de otimismo
Era a lida do cãozinho,
Uma verdadeira criança
A espalhar confiança
Na vida que se apresenta,
Sabendo quando esquecer
Os maltratos recebidos,
E também perdoar,
Mostrando que o amor
É o sentimento maior.



Que no amor se engloba a dor,
A alegria e a confiança,
A lembrança e o perdão,
E é, sobretudo, no amor
Que se alimenta a esperança,
A chama que nos faz crer
Que dias melhores virão,
Pois viver sem esperança,
Sem sonhos, sem amor,
É só passar pela vida
Sem realmente viver!

Essa era a filosofia
De um cão, errante e vadio,
E era bem superior
À de muita gente bem,
Que só reclama da vida
E constantemente se esquece:
De tudo que se recebe
Logo, o bem é esquecido
Só o mal é que é lembrado.
Justamente o contrário
Do que demonstrava o cãozinho.

Mas um dia, distraído,
O pobre viralatas
Ao fugir de uma pedrada,
Nas rodas de um caminhão
O seu fim ele encontrou.
Ninguém sentiu sua agonia,
Ao contrário, reclamavam
Do transtorno que causava
O animal ali no asfalto
Obrigando a desviar
Todo o trânsito da rua.

Mas o que ninguém sabia
É que o pobre animalzinho
Assustado com o alvoroço
Ali, no meio da rua,
Ainda assim não se queixava
Do triste fim que avizinhava;
Não chorava suas dores,
Não reclamava da vida,
Nem se assustava com a morte.
Até esquecera as pedradas
E a todos perdoava.



Mas o que naquela hora
O viralatas mais sentia
Era a falta de um amigo
Que lhe coçasse a cabeça,
Que lhe fizesse um afago,
Que o levasse pra bem perto
Da molecada da rua,
Que o cãozinho não queria
Ser estorvo pra ninguém,
Mormente naquela hora
Em que ele se despedia...

O que mais me comoveu
Foi ver o animalzinho
Que a vida só maltratou,
Sentindo a morte chegar,
Pra demonstrar que ainda amava
Ao mundo que o rejeitou,
Em um esforço supremo
Apesar do que sentia,
Sua cauda ele abanou
E assim permaneceu
Até que a morte o levou...

Sei que nunca fui poeta,
Muito menos escritor,
Mas pra contar essa história
Desse cão que conheci,
___ Tinha o corpo todo branco,
tinha o rabinho cotó,
na cabeça a mancha escura
que lhe cobria as orelhas___
Minha gente eu me arrisquei
A passar qualquer vexame
Pra deixar aqui gravada
A história do “Totó” !


Alberto Sergio C. Pierro

APML – Cadeira No. 08

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Só por Brincadeira










Só por brincadeira,
Vou chegar sorrateiro
Assim como quem não quer nada,
Abraçando-te por trás
Sussurrando baixinho
Palavras de arrepiar

Só por brincadeira,
Minha mão atrevida
Assim como quem não quer nada
Se insinua por teus seios
Alisando de mansinho,
Toques de arrepiar

Só por brincadeira,
Minha boca sequiosa
Assim como quem não quer nada
Põe a língua maliciosa
A explorar-te a nuca
Úmida de arrepiar

Só por brincadeira
Minhas pernas serpenteiam
Assim como quem não quer nada
Por entre tuas pernas nuas
Se insinuam entreabrindo-as
Em promessas de arrepiar

Só por brincadeira
Minha roupa cai ao chão
Assim como quem não quer nada
Deslizando tuas roupas
Cobrindo-te com minha nudez
Em gozos de arrepiar



Alberto Sergio C. Pierro

APML – Cadeira No. 08




2004

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A ESCADA














Alberto Sergio C. Pierro

APML – Cadeira No. 08


Os cabelos em desalinho pelo recente despertar

O corpo ainda mole, o gosto de guarda chuva

A incomodar-me a boca seca, os pés a arrastar

O velho chinelo de couro, custei a atender

O som conhecido da velha escada a ranger

As largas tábuas sob o peso de alguém.

Ritmicamente, os passos subiram

Cansados, vencendo a distancia e altura.

Antes mesmo de meus olhos verem,

Meu coração, em sobressaltos, sentiu

A meiga e doce presença dela.

A boca secou-me ainda mais

Os pelos se eriçaram estimulados

Pelas lembranças de dias atrás

Senti meu corpo enrijecer-se

Teso, de idéias pleno, ansioso

Como a antever horas de delírio

Luxúria, prazer carnal desenfreado

Louco e amoral, explosão e êxtase.


Seu perfume inundou-me os sentidos

Sua pernas esguias por Deus esculpidas

Terminaram a subida, e pude vê-la!

Ah! Divinal imagem, anjo e demônio,

Tempestade e calmaria,

Com que ardor me inebria o ser

Tomo-lhe as mãos – delicadas

Aperto-a contra mim – que corpo

Sinto-me crescer, explodir – tesão

Exploro o conhecido terreno

De seu corpo macio e quente – volúpia

Mais que tirar, arranco-lhe, as vestes

Em justificada pressa – anseio

Minha língua serpenteia-lhe a pele

Queimada e dourada pelo sol – verão

O gosto de mar e desejo se misturam


Ofegante atiro-a sobre os lençóis

E o resto que havia de suas vestes

Já não há mais, apenas ela e eu

Nossa nudez namora indiferente

Ao mundo, à lógica, à razão

Nossas mãos afoitas mergulham

Alisam, arranham, apertam

Cada parte, cada lado, cada profundidade

Ah! Cada profundidade, reentrância

Relevo, pelo, bico, pele, nuca

Nada escapa àquela exploração

Louca, ávida, sequiosa e apressada

Seu peso é leve sobre o meu

Meu corpo é pecado sobre o seu

Meus olhos se divertem com os dela

Enquanto minhas mãos passeiam donas

Daquele corpo que se contorce

Cada curva, monte, o que seja

É cuidadosamente acariciado

Prolongando o prazer, adiando o êxtase

Suas pernas se afastam facilitando

E meus dedos não se fazem de rogado

Alisam, entram, saem, tornam a entrar

Molhados já de luxúria e prazer


Seu corpo se vira e me inebrio

Ante aquela milagrosa visão

Poço de virtudes e de pecado

Angelical formosura que molha

Escultural pecado que seca

Até o não poder mais

Sinto-me explorado, felinas

Mãos que me percorrem

Nas mais íntimas partes

Cresço, subo, molho, gemo

Sem medo, sem vergonha, teso

A língua úmida passeia

Explora, molha, engole, serpenteia

Segura, judia, pune, premia

Morde, beija, pede, foge!


E chave que é carne procura

A fechadura que é gruta

E entra, e abre, e gira, e queima

E é loucura na lucidez

É reza no pecado

É sede no mar, é vento

Na pradaria, é onda na praia

Que vai e vem, e torna a voltar

Recua e investe, seca e molha

Até não ser mais que exaustão

Respirar ofegante, lassidão

Suor desgrenhado, sexo saciado

Pernas soltas, seios molhados

Licor derramado, arfando

Pedindo perdão e querendo de novo!


A água que escorre na nudez

A espuma que alaga o chão

Retira a esperança que era tanta

Perfuma a pressa que é pouca

A seda que cobre a pintura

Faz sumir a escultura

Até a escada cantar novamente

Levando tanto de mim

Restando só a saudade

E a esperança de novamente

Ouvir as largas tábuas

Gemerem sob o peso de alguém

E como nova aurora que chega

Começar tudo de novo

Até a escada vencer em por de sol













O novo livro de poesias do Ir. Pierro,


"Flamboyant"


já na editora, deverá ser lançado em meados de maio de 2010.


 

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